Magnífica Humanidade (4)
rosel beraldo e anor sganzerla
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O capítulo três da Encíclica Magnífica Humanidade, se debruça num tema que tem suscitando todos os tipos de pensamento, qual seja, a técnica e suas profundas implicações na vida humana e extra-humana, não é fácil em poucas palavras traduzir a técnica e todos os seus artefatos disponíveis, seja para o bem ou para o mal, ela afeta todos os campos, absolutamente ninguém se encontra imune a ela, a técnica está também a serviço da sua filha mais nova, a inteligência artificial, um campo nada neutro, pois está a serviço de grupos que detém o poder tecnológico, esse novo capítulo na história, julga ser o melhor caminho, a rota mais eficiente para se eliminarem males que a milênios torturam a existência, mas a ironia maior é que todo esse aparato tecnocrático é incapaz de resolver todos os problemas; ter poder não significa que o futuro será melhor para todos; a história está cheia de casos.

          Impossível no atual estágio definir em pormenores essa nova onda chamada de inteligência artificial, há os seus adoradores, mas também existem os seus detratores, o certo é que a inteligência artificial apenas imita, apenas representa com maestria as atividades humanas, ela é “veloz” com certeza, “pensa” com rapidez, possui um “corpo” distante de nós, se “relaciona” com nós humanos, de um modo profundamente superficial, pois ela não sente as nossas alegrias, não convive com as nossas misérias, não ama, não sabe o que é ter alegria, tristeza, estar bem alimentado ou passando fome; por outras palavras, a inteligência artificial vive num mundo a parte, totalmente desvinculado da experiência humana concreta, o seu programa de vida é o cálculo, a eficiência, o quanto uma pessoa pode dar de lucro, suas emoções são frias, seus afetos são surdos e mudos.

          O progresso da vida realmente nos fascina, nos embebeda, nos tira do chão e muitas vezes nos transporta para às inúmeras redes das ilusões, das utopias, o progresso tem a palavra mágica chamada “promessa”, esse é o seu carro chefe, ele mostra a largada, mas nunca mostra o caminho a ser percorrido, as veredas, os abismos e precipícios que podem aparecer ao longo dessa corrida, o progresso apenas imagina, sonha com a perfeição, de que um dia nos livraremos dos tormentos, das amarras, das desgraças e doenças, mas eis que até agora esse progresso foi parcial, pontual, ele não chegou para todos; esse mesmo progresso que pode fazer o bem, produz também o mal, ele nos deixa vulneráveis em muitas situações, esse progresso quando temos a coragem de olhá-lo de frente vemos que ele não foi e não é responsável, apenas ele é um padrão, orientado apenas para o lucro.

           A nova moda do momento, chamada de inteligência artificial promete demais, é uma bela construção humana não resta dúvida, em suas entrelinhas está a simplificação da vida, um corte profundo, uma busca pela otimização e rapidez, ela joga para escanteio as intermediações, ela se julga capaz de selecionar, opinar e decidir, sobre o que melhor nos convém, por outras palavras, a inteligência artificial, alimentada por milhões de dados se acha agora no direito de intervir e superar o humano, de aperfeiçoar o que aí está, quebrar as barreiras, ultrapassar todos os limites, sabemos bem nesse curto espaço de tempo que a inteligência artificial sacrifica os incapazes, elimina os fracos, seleciona os vulneráveis, mata os inocentes com os seus drones, não podemos ignorar que uma nova eugenia, disfarçada de bem comum se encontra a caminho; assim não custa muito abrirmos os olhos.

          Bioeticamente, o capítulo três, da Encíclica Magnífica Humanidade, ao tratar da técnica, quer nos alertar sobre os muitos ufanismos humanos desmedidos que estão percorrendo a humanidade nesse momento, tais ideias e concepções de mundo nem sempre estão vindas acompanhadas de um real interesse em proteger a humanidade, antes disso, a inteligência artificial vem povoando o imaginário sem uma proposta clara, no mais das vezes eles apenas propõe uma vida mais fácil, mais libertadora, menos burocrática, mais regrada por números, cálculos e eficiência, a inteligência artificial e seus discípulos nos dizem onde ela quer chegar, mas jamais nos informam como chegaremos lá, as cobaias que serão usadas para tal “sucesso”, as vítimas inocentes que serão sacrificadas no altar do deus progresso; fiquemos pois mais atentos, mais espertos, aplaudamos menos.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com


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