AGORA

Pesquisa agrícola

Biota do solo reduz gasto com adubo, aponta estudo no Paraná

Rede Agropesquisa monitora áreas com e sem terraço em seis regiões do estado desde 2018; em Dois Vizinhos, o número de esporos de fungos benéficos foi 39% maior com terraceamento

dia de campo

Um estudo da Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada (Rede Agropesquisa) mostra que preservar a biota do solo, formada por minhocas, besouros, formigas, fungos e bactérias, reduz o gasto com adubo e defensivos no Paraná. A vida no solo também aumenta a resistência à seca e a produtividade das lavouras.

Desde 2018, a equipe monitora áreas com e sem terraço em seis regiões do Paraná. Em Toledo, o número de esporos de espécies de Fungos Micorrízicos Arbusculares foi 117% maior nas áreas com terraço. Em Dois Vizinhos, a diferença foi de 39% e, em Cambé, de 14%.

A Rede Agropesquisa participa do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Prosolo (Napi-Prosolo), com apoio do Sistema FAEP e da Fundação Araucária. O estudo é coordenado pelo pesquisador Arnaldo Colozzi Filho, doutor em Agronomia do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), em Londrina.

Biota do solo reduz uso de insumos

“A biota do solo é fundamental para o sistema solo-planta. Bactérias, fungos, minhocas, besouros, formigas e uma infinidade de outros organismos formam, junto da água, ar e componentes físicos e químicos, o chamado ‘solo vivo'”, explicou Colozzi Filho.

Segundo o pesquisador, o efeito aparece no bolso do produtor. “A biota vai possibilitar menor adubação com químicos, menor uso de herbicidas e fungicidas. Ou seja, quanto mais ativa e diversificada essa vida no solo, menos insumo externo o produtor precisa usar e maior a rentabilidade da lavoura”, afirmou.

Por muito tempo, a terra foi tratada apenas como um suporte para a planta crescer, cheio de nutrientes e minerais. A ciência hoje entende o solo de outra forma.

Como os organismos atuam na lavoura

A biota decompõe a palhada, recicla os nutrientes e os disponibiliza para a planta. Um exemplo é a palha que desaparece do chão três meses após a colheita do milho, resultado do trabalho de insetos, fungos e bactérias que fragmentam o material e liberam nutrientes de volta ao sistema.

Há ainda um efeito de proteção natural contra pragas e doenças, já que alguns organismos podem controlar patógenos de plantas. Fungos de solo, por exemplo, controlam populações de nematoides, organismos que atacam raízes e prejudicam as plantas.

Papel do terraceamento

O terraço é uma estrutura criada para corrigir um desequilíbrio provocado pela própria agricultura. Segundo Colozzi Filho, a função é reduzir o escoamento superficial da água da chuva, para que ela permaneça na área e infiltre no solo, em vez de escorrer para os rios levando terra, adubo e defensivos.

Sem terraço, o produtor perde em três frentes ao mesmo tempo: nutrientes (erosão química), solo (erosão física) e organismos que vivem na camada superficial da terra (erosão biológica). “Se perde muito do resultado da produção agrícola com o manejo inadequado do solo”, resumiu o pesquisador.

Nas áreas terraceadas, a água fica retida e infiltra no solo. Isso cria um ambiente mais estável, com menos variação de temperatura e mais umidade disponível, condição ideal para que os microrganismos trabalhem com mais eficiência.

Nas regiões monitoradas, essa estabilidade se refletiu em mais atividade biológica e, em alguns locais, em aumento expressivo na diversidade de fungos benéficos que vivem associados às raízes das plantas.

“Esses fungos integram um dos milhares de grupos de organismos que habitam o solo. Eles têm uma particularidade importante para produção agrícola: são simbiontes, ou seja, colonizam as raízes das plantas e crescem no solo como se fossem uma extensão da raiz e, assim, permitem que absorvam mais nutrientes, sem prejudicá-la. Uma simbiose perfeita”, explicou Colozzi Filho.

Em regiões de solo mais arenoso, como o Noroeste do Paraná, a atividade biológica é naturalmente menor, por características próprias daquele tipo de solo e clima. Mesmo assim, o padrão observado indica que manter a água no perfil do solo favorece a vida que sustenta a lavoura.

Plantio direto protege a temperatura do solo

Se o terraço cuida da água, o plantio direto cuida da cobertura e da temperatura do solo. Para Colozzi Filho, a prática é fundamental para um manejo sustentável.

Em solo descoberto, a temperatura na superfície pode chegar a níveis em que parte dos microrganismos perde a atividade. Ao manter a palhada e reduzir ao máximo o revolvimento da terra, o plantio direto reduz essa temperatura, mantém a umidade e preserva as raízes que sobram após a colheita. Essas três condições favorecem minhocas, fungos e bactérias.

O sistema plantio direto vai além de não revolver o solo. Ele inclui também rotação de culturas e cultivo em nível, práticas que, somadas ao terraceamento, formam um pacote conservacionista completo.

“É muito importante praticar a ciência para que se possa ter rentabilidade na produção agropecuária e manter o seu solo como um legado para as gerações futuras”, disse o pesquisador.

Quem participa do estudo

Além de Colozzi Filho, a pesquisa conta com Andrea S. Menoncin (IDR-Paraná) e com os professores Carolina W. Galvão (UEPG), Adriana Knobb (Unicentro), Francielli Gasparotto e Edneia A. S. Pacolla (Unicesumar), Rosilaine Carrenho (UEM) e Dinéia Tessaro e Carlos A. Casali (UTFPR-Dois Vizinhos).

“O Sistema FAEP tem priorizado pesquisas a campo, porque sabemos que o futuro da agropecuária paranaense passa pela ciência”, disse o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “É preciso garantir que o solo continue produtivo para as próximas gerações. Por isso, seguimos apoiando essas parcerias com universidades e instituições de pesquisa. É assim que o Paraná se mantém na vanguarda de uma agropecuária moderna, sustentável e competitiva”, completou.

Clique aqui e faça parte do nosso grupo no WhatsApp

Entrar no grupo agora

Paulo Felipe

Jornalista com 15 anos de experiência em redações de jornais impressos e portais de notícias. Há 4 anos se dedica exclusivamente a escrever para portais de notícias. Somou-se a equipe do Diário do Sudoeste

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *