A sucessão familiar representa um desafio comum para produtores rurais do Paraná e do Iowa, nos Estados Unidos. Durante viagem técnica, uma delegação do Sistema FAEP com 40 produtores e lideranças conheceu programas da Iowa State University voltados à preparação de novas gerações para assumir propriedades e garantir a continuidade dos negócios rurais.
Dados do Censo Agropecuário dos Estados Unidos de 2022, levantamento mais recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), indicam que a idade média dos produtores do Iowa é de 57,6 anos.
Dos 153 mil produtores contabilizados no Estado, 58 mil tinham 65 anos ou mais. O envelhecimento ocorre em um cenário no qual jovens também encontram oportunidades profissionais fora das propriedades rurais.
Jovens encontram oportunidades fora da agricultura
Natan Seraglio, assistente de pesquisa da Iowa State University e filho de produtores rurais do Tocantins, observa uma participação reduzida das novas gerações nas atividades de extensão oferecidas pela instituição.
“Geralmente, durante o inverno, há eventos de extensão da universidade e é difícil ver pessoas da nova geração participando. O pessoal mais novo não está querendo ficar na agricultura”, afirmou.
Segundo Seraglio, a renda oferecida por outros setores também influencia as escolhas profissionais dos jovens.
“Um americano que se forma aqui e vai trabalhar na indústria consegue um salário bom na indústria. Isso acaba desmotivando a permanência na atividade”, acrescentou.
Mudança de geração pode alterar estrutura das propriedades
A ausência de sucessores pode produzir mudanças na organização da produção. Na avaliação de Seraglio, propriedades que deixam de permanecer sob gestão familiar podem abrir espaço para uma agricultura mais empresarial e concentrada.
“Em vez de ter agricultura familiar, vai virar uma agricultura empresarial. Grandes grupos já estão comprando terras e, no futuro, também vão passar a plantar quando essa geração atual deixar a atividade”, avaliou.
Levantamento da Iowa State University aponta que 55% das terras agrícolas do Iowa pertenciam, em 2022, a pessoas que não estavam diretamente na atividade.
Ao longo das últimas décadas, também houve redução proporcional das áreas mantidas exclusivamente em propriedade individual ou conjunta e aumento de estruturas como trusts e empresas de responsabilidade limitada, as LLCs.
Universidade prepara famílias para transição
Diante desse cenário, a Iowa State University mantém programas de planejamento patrimonial e sucessório para propriedades rurais.
As iniciativas incluem oficinas, cursos, materiais e ferramentas destinadas a auxiliar famílias durante a transição entre gerações.
Entre os programas está o Managing for Today and Tomorrow: Farm Transition Planning, que aborda planejamento do negócio, aposentadoria, patrimônio e sucessão. A universidade também promove oficinas específicas sobre sucessão rural.
O planejamento, porém, é apenas uma parte do processo. A permanência das novas gerações também depende de condições para que os jovens encontrem perspectivas econômicas e profissionais na propriedade.
Jovem do Iowa planeja continuar atividade da família
Essa decisão já faz parte da rotina da Justin Robbin’s Farm, propriedade de pecuária de corte localizada em Scranton, no Iowa, visitada pela delegação do Sistema FAEP.
McKinley Robbins, filho dos proprietários Justin e Lacy Robbins, pretende dar continuidade à atividade da família. Ao mesmo tempo, planeja ingressar na faculdade de Medicina Veterinária.
O jovem ainda avalia como poderá conciliar a futura profissão com o trabalho rural. Uma das alternativas consideradas é reduzir o tamanho do rebanho para adaptar a propriedade à futura rotina.
“Eu quero continuar trabalhando na fazenda e seguir o trabalho da minha família porque os Estados Unidos e o mundo sempre vão precisar de alimentos. Quero continuar fazendo isso”, afirmou.
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Paraná trabalha sucessão entre duas gerações
No Paraná, o Sistema FAEP desenvolve o programa Herdeiros do Campo, que há dez anos trabalha a sucessão diretamente com produtores e familiares.
A capacitação exige a participação de pelo menos duas gerações da mesma família. Os participantes discutem governança, planejamento estratégico, resultados econômicos, mediação de conflitos e construção de confiança.
Ao final do programa, cada família começa a estruturar um plano de ação para conduzir o próprio processo de sucessão.
O produtor José Carlos da Silva Maia, representante do Sindicato Rural de São João do Caiuá e integrante da delegação, já colocou o processo em prática. O filho Carlos Eduardo Maia assumiu a frente dos negócios e dois netos também demonstram interesse pela atividade.
“Hoje meu filho está à frente dos negócios. E já tenho dois netos, filhos dele, que também estão focados”, contou.
“Muitos produtores investem durante toda a vida, mas, se não houver sucessão, aquilo pode acabar se perdendo pelo caminho. A gente entendeu essa necessidade e já implantou esse processo dentro do negócio com o apoio e assistência do Sistema FAEP”, afirmou.
Viabilidade econômica pesa na decisão
Para o diretor-secretário do Sistema FAEP, Livaldo Gemin, estimular a permanência do jovem não é suficiente se a propriedade não oferecer condições econômicas para sustentar essa decisão.
“Quando há viabilidade econômica e o sucessor pode viver naquele ambiente que escolheu e gosta, a sucessão passa a ser encarada como algo natural da atividade”, destacou.
Segundo Gemin, a experiência observada no Iowa mostra que a dificuldade de atrair novas gerações para a atividade rural também está presente fora do Brasil.
“O cenário observado no Iowa reforça que a dificuldade de atrair os jovens não é exclusiva do Brasil. Enquanto novas tecnologias, máquinas e inteligência artificial ajudam a projetar o futuro da produção, garantir quem estará à frente das propriedades nas próximas décadas continua sendo uma decisão que só os produtores podem tomar”, concluiu.

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