O Sul do Brasil não está esperando o Super El Niño para sentir seus efeitos. Enquanto o pico do fenômeno é projetado para o período entre setembro e dezembro, o Rio Grande do Sul contabiliza, neste momento, quase 60 mil pessoas e 218 municípios afetados pelas chuvas do fim de semana, segundo o Centro de Operações da Defesa Civil do estado.
São 488 pessoas desabrigadas e 762 desalojadas, a maioria concentrada no Vale do Taquari, região que soma 91,6% dos desabrigados do estado, com Lajeado respondendo por 321 pessoas, seguida por Encantado, com 100, e Estrela, com 26. Em julho, a Defesa Civil Nacional reconheceu situação de emergência em 17 municípios gaúchos e mantém alerta vermelho de inundação para os rios dos Sinos, Uruguai e Jacuí, com São Leopoldo, Itaqui, Uruguaiana e Cachoeira do Sul em alto risco.
Santa Catarina também sente os efeitos
Santa Catarina, por sua vez, já vive o que a própria Defesa Civil estadual chama de primeiro evento com influência direta do El Niño, identificado em 16 de julho. O estado havia decretado, em maio, estado de alerta climático por 180 dias, após projeção de 90% de chance de formação do fenômeno.
Entre 21 e 22 de julho, 24 municípios catarinenses registraram mais de 100 milímetros de chuva em 24 horas, concentrados no Oeste, Meio-Oeste e Alto Vale do Itajaí, com destaque para Campo Erê, Coronel Freitas e Videira, provocando alagamentos, interdições de rodovias e retirada preventiva de famílias.
Rio Grande do Sul já conhecia sua exposição
O que acontece agora no Rio Grande do Sul ecoa diretamente maio de 2024, quando o estado viveu a maior enchente de sua história, com 181 mortos, mais de 580 mil pessoas fora de casa e reconstrução estimada em 19 bilhões de reais. Depois daquele desastre, o Serviço Geológico do Brasil mapeou emergencialmente 1.944 áreas de risco alto e muito alto em 95 municípios gaúchos, onde vivem 564 mil pessoas.
Porto Alegre investiu, desde então, em telemetria nas estações de bombeamento, geradores fixos e válvulas contra refluxo. Mas a semana atual mostra que a exposição não se limita à capital: é no interior, no Vale do Taquari e em municípios como Eldorado do Sul, que a fragilidade volta a aparecer primeiro.
Litoral catarinense tem histórico de erosão
Em Santa Catarina, o retrato mais claro do risco recorrente está no litoral sul do estado. Jaguaruna viveu, em maio de 2026, uma ressaca com ondas de cerca de quatro metros, que abriu caminho entre as dunas e danificou passarelas. Não foi o primeiro episódio: em dezembro de 2024, o município registrou um tsunami meteorológico, quando o mar avançou por mais de dez quilômetros continente adentro.
Tubarão viveu, em 1974, o desastre mais trágico da história catarinense, quando o Rio Tubarão subiu mais de dez metros e deixou 199 mortos e 65 mil desabrigados. A vizinha Araranguá guarda registro semelhante, com a enchente de 1974 e a de Natal de 1995 entre as mais graves já registradas na região.
Paraná recebe alerta com antecedência
No Paraná, o alerta veio em nota técnica conjunta da Defesa Civil estadual com o Simepar: o ciclo El Niño 2026/2027 eleva a probabilidade de tempestades severas com vendavais, granizo de médio a grande porte, enxurradas urbanas e deslizamentos na Serra do Mar, com atenção a Curitiba, à porção leste do estado e ao litoral.
O risco imediato relativo ao El Niño está mais concentrado no Oeste, Sudoeste e Centro-Sul paranaense, com a Região Metropolitana de Curitiba e o litoral descritos pela própria Defesa Civil como de tempo mais estável, o que evidencia que a exposição no Sul se desloca de estado para estado ao longo da estação. O documento recomenda aos gestores municipais atualização de cadastros de áreas suscetíveis, dragagem preventiva de canais e atenção contínua aos alertas em tempo real.
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“A pergunta é o que muda até o próximo”
Para o engenheiro Felipe Fogaça, especialista em inovação e cooperação tecnológica entre Brasil e Alemanha, que estuda logística humanitária e preparação para desastres, o que o Sul vive agora confirma um padrão, não uma exceção.
“O que vemos agora, com o Rio Grande do Sul contabilizando dezenas de milhares de afetados e Santa Catarina em alerta, não é uma anomalia. É o comportamento que os dados já documentavam há décadas nos dois estados. A pergunta que interessa não é lamentar o episódio, é perguntar o que muda, de fato, até o próximo”, afirma.
Sobre o litoral sul catarinense, o especialista destaca que um tsunami meteorológico não avisa com uma semana de antecedência, mas com minutos, o que exige que as cidades tenham estoque posicionado e rota alternativa definidos antes do evento.
Ele também chama atenção para as particularidades locais, como o caso das lagoas de Laguna e Imaruí, onde a água sobe pela maré e não apenas pela chuva, exigindo planos de resposta específicos para cada território.
Perguntas que ajudam no diagnóstico
Segundo Fogaça, alguns pontos ajudam gestores municipais do Sul, ribeirinhos ou costeiros, a antecipar o diagnóstico: se as bombas e comportas da cidade funcionam sem energia da rede e quando isso foi testado; se existe plano específico para inundação por maré ou ressaca, diferente do plano para enchente de rio; se há estoque de emergência posicionado para bairros que ficam isolados quando a maré ou o rio sobe; e se o mapa de risco da cidade já incorpora os eventos mais recentes.
“Preparo não é reagir mais rápido à próxima enchente. É ter, antes dela, o mapa de quem precisa, o estoque posicionado e o protocolo testado”, resume Fogaça.

















